“Tecnologias Temporais” é uma exposição que desloca objetos e gestos de seus usos
habituais para investigar a relação entre passado e presente.Tecnologias Temporais
por Ana Paula Lopes
[...] Cada coisa ordinária é um elemento de estima Cada coisa sem préstimo tem seu lugar na poesia [...] Manoel de Barros, Matéria de poesia, 1974
O artista é quem convoca o brilho das coisas, ativando fantasias, cores e corpos em seu fazer de gesto, onde os objetos se transformam em um fluxo de saber, convertendo-se em amuletos que revelam novas imagens e tecnologias do tempo. É nesse campo poético e experimental que se inscreve a produção de Desirée Feldmann, apresentada no 34º Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo.
Para Desirée Feldmann (1989), a coisa, o material e o fazer são maneiras de tornar visível um mundo. Nascida no Rio Grande do Sul, sua trajetória artística é profundamente marcada por sua história familiar ligada à costura e a uma transdisciplinaridade entre Moda, Design Gráfico. Além do seu trabalho com estamparia que se torna também fonte de conhecimento na investigação das superfícies e materialidades.
Os princípios da manufatura, considerados sabres de segunda mão e operacionais, são permeados para dar organicidade e amplitude a um mundo de conveniência das “coisas”[1]. O processo de diversa disciplina atravessa a fatura e instaura um fluxo rítmico do fazer, que germina seres e ecossistemas, dos quais emulamos um mundo, nomeamos e julgamos, como se nos coubesse ditar seu destino. Nesse percurso, a coisa deixa o previsível da manufatura para um voo a transgressão que se a partir de um tentacular arqueológico do conhecimento que ativa instintivo que pulsa através das mãos. Um labor de juntar matérias e tecnologias para transformar a imagem do mundo.
Dessa forma, transformar a matéria para Desirée é um aviamento[2] que irrompe do desenho para tridimensional por meio de um processo minucioso de modelar, recortar e alinhavar materiais. Uma vez desenhadas, as peças despertam sob a ação do fazer das mãos, que cortam e modelam no papel holler, uma união de técnicas e memórias artesanais colhidas nas fábricas de bolsas. Assim sobre as mãos de Desirée nasce uma quimera de tecnologias temporais.
Cada objeto é concebido para coexistir em harmonia com os demais, sem perder sua autonomia. Esse processo minucioso e de aviamento da artista transformam-se os objetos em joias, embora distintas, compartilham um mesmo brilho. Os gestos variados se desenham na parede em torno de corpos densos, tal como pedrarias, que são sustentadas por finíssimos fios de metal. Assim os objetos, tornam-se uma joia que quando unidos formam colares que abraça o colo. Mas há também aqueles que se revelam solitários. Um anel, brincos e pendentes, que na sua singularidade, continuam a carregar a força e a memória do todo. As mãos de Desirée não param, delinea e reconfigura novamente a forma, em um fluxo orgânico reluz poeticamente um movimento de seres vivos que agrupadas transformam-se em seres fantásticos que dançam e geram ecossistemas sobre o branco. Dessa forma, a produção de Feldmann, marcada pelo alto impacto do feito à mão, tece atravessamentos entre saberes e compõe paisagens e ecossistemas que se desenham entre o colorido e as modulações do cheio e do vazio. Esses elementos tornam-se como amuletos de um mundo que à primeira vista parece estreito, mas que, na verdade, revela caminhos profundos e trilhas sensíveis que sabem escutar um coração.
[1] Foucalt. Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das coisas humanas, p. 35. Disponível: https://projetophronesis.wordpress.com/wp-content/uploads/2009/08/foucault-michel-as-palavras-e-as-coisas-digitalizado.pdf
[2] Aviamento são materiais utilizados na confecção de roupas e acessórios. São assim modos de unir matérias para dar acabamento e detalhes das peças, que podem ser desde zipares até fivelas.